Como se despedir de um imortal?

1 Postado por - 20 de julho de 2017 - Artigos, História Tricolor, Homenagem

 

– Bem-vindo, Sant’Ana. Ou você prefere que te chamem de Pablo?

– Onde estou?

– Onde sempre estivestes. Espere um instante, vamos pedir para alguém acompanhá-lo ao seu lugar.

 

Ele olha ao seu redor. O ambiente é calmo, tranquilo. Perturbadoramente calmo, pensou. A cor azul celeste predomina. Um grande portão de ferro se abre, revelando uma pessoa baixa, de barba.

 

– Nélson? Graças a Deus és tu, Nélson! Já achei que tinha morrido e estava no céu!

– Meu amigo, você está onde sempre esteve.

 

Após um longo abraço, Nelson o segura pelo braço e ambos começam a subir uma imensa rampa de um branco tão intenso que reflete a luz do sol. Um sol diferente de todos que Paulo já tinha visto antes.

 

A rampa faz uma pequena curva para a direita, revelando uma imensa esplanada repleta de pessoas.

 

– Mas esta é a Arena do Grêmio, Nélson! O que estamos fazendo aqui?

 

Antes que obtenha uma resposta, Paulo é cercado por centenas de rostos conhecidos. São amigos, parentes, colegas de trabalho. Gente que ele sempre gostou, e que sempre gostou dele. E gente que ele não conhecia. Mas sabia, pelos olhares, que eram pessoas que tinham uma intensa admiração por ele.

 

São estas pessoas que agora o carregam nos braços. Ele não reage, apenas olha para cima admirando o céu, se deixando levar pela multidão.

 

– Ah, o pórtico do largo dos campeões… Quantas lembranças!

 

As luzes ficam mais fortes e a turba o deixa no centro do campo. O brilho dos refletores machucam seus olhos. Ele olha para baixo, reconhece a marca de cal. Olha para frente e encontra um pedestal.

 

– Meu lugar é nas cabines, o que estou fazendo aqui?

– Calma meu amigo. Segure isso aqui que o jogo já vai começar.

 

Ele reconhece o negro que gentilmente lhe alcança o microfone com um grande sorriso nos lábios.

 

– Lupe? Então estou mesmo morto? Onde está o Nélson? Ele também te contratou?

– Você está onde sempre esteve. Canta comigo?

 

Ele leva o microfone à boca, mas sua voz soa diferente. Milhões de pessoas entoam o hino do Grêmio com eles. E as palmas, elas sim são ensurdecedoras.

 

– Se vocês me permitem, podemos cantar um bolero?

 

Ele é interrompido por uma voz cheia de personalidade.

– Vocês terão muito tempo pra isso ainda, seu velho gagá!

 

O xingamento é cheio de carinho, daqueles que apenas os verdadeiros amigos conseguem trocar.

 

– Kenny, seu vagabundo-mal-caráter! Se eu estou morto, como você está aqui comigo?

– Você está onde sempre esteve. Agora toma aqui o teu cigarro que eu preciso me mandar.

– Nunca duvidei, meu amigo. Nunca duvidei.

 

O apito do juiz é alto e agudo. Airton Pavilhão, jovem como quando chegou no Grêmio, fala gentilmente.

 

– O primeiro pontapé é seu, Paulo. Pode começar a partida.

 

Sant’Ana chuta a bola, escuta os aplausos do estádio lotado, mas não acredita no que esta vendo.

 

– Lara. Everaldo. Adão. Alcindo. Ortunho. Juarez. Yura. De Leon. Bonamigo. Renato Portaluppi… Denner, Danrlei, Jardel, Paulo Nunes. Menino Luan. Grohe, me desculpe Marcelo…

– Sim, Paulo. Estão todos aqui por você.

– Nelson, querido! A Geral está contigo! Eu sabia! Tinha certeza! Você está por trás dessa façanha toda. Ainda falta alguém?

– Infelizmente, somente um: o Ronaldinho não passou pela biometria.

– Que pena. Tudo bem. Hoje nada mais interessa.

– Sente-se aqui ao meu lado. O jogo promete.

 

Paulo não acredita no que seus olhos estão vendo. Ou seria revivendo? Ele apalpa os bolsos e encontra seus cigarros. Dá uma primeira tragada com gosto.

 

Eis que um querubim gordinho, desajeitado, com toda a pinta de marinheiro de primeira viagem, atravessa correndo a tribuna. Ele fala, entre gaguejos:

– Desculpe-me, Pablo, mas não é permitido fumar aqui dentro. O senhor se importaria de apaga-lo?

 

As arquibancadas silenciam. Guerrinha e Pedro Ernesto prendem a respiração na cabine de transmissão. Os jogadores param de jogar, os quero-queros de gritar. A Arena fica em profundo silêncio.

 

Eis que se escuta uma voz forte. Calma, apesar de carregada com uma pitada de ira divina. Apenas duas palavras vindas de cima:

– Ele pode.

 

Foi assim sua vida inteira. Por que seria de outra maneira agora que és verdadeiramente imortal?

Obrigado, Pablo. Por sempre estar ao nosso lado. Por sempre defender nossas cores. Por tudo.

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3 + comentários

  • Minwer 20 de julho de 2017 - 12:26 Responder

    Lindo texto, Tiago!

    Conseguiu me fazer chorar.

    • tiagorussel 20 de julho de 2017 - 14:44 Responder

      Obrigado, turquinho. Foi difícil escrever. As lágrimas também insistiam em não deixar. 🙂

  • Ezio 20 de julho de 2017 - 14:13 Responder

    O GREMIO ganhará a Libertadores e o Mundial e os titulos serão dedicados ao Sant’Ana que deve ter partido feliz ao ver o Imortal dar mais um show ontem…

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